Celebrar os 180 anos de elevação de Uruguaiana é reverenciar uma terra que nasceu destinada à grandeza histórica.
Poucos lugares do Brasil carregam uma trajetória tão intensa, estratégica e profundamente ligada ao destino da América quanto Uruguaiana.
Antes mesmo de existir oficialmente, esta fronteira natural definida por um rio mesopotâmico que hoje empresta seu nome ao município, Uruguaiana já era território de indígenas que aqui se estabeleceram. Foi palco do encontro entre dois mundos, quando jesuítas e indígenas aqui criaram gado nas reduções. Foi passagem de tropas, tropeiros, caudilhos, revolucionários e sonhadores. O Passo de Santana, a antiga Capela Curada do Uruguai e a histórica Santana Velha testemunharam o encontro — e muitas vezes o choque — de povos, culturas e projetos de nação que formam hoje o mapa político da América Latina.
Aqui, nas margens do rio Uruguai, desenharam-se fronteiras “à ponta de lanças e cascos de cavalos”. Aqui, Brasil, Argentina e Uruguai ainda buscavam seus destinos enquanto a fumaça das guerras e revoluções moldava o sul do continente.
Esta filha dileta nasceu em meio à epopeia farroupilha. Durante a mais longa Guerra Civil da história deste país, o próprio General Bento Gonçalves da Silva foi quem determinou a fundação desta povoação estratégica na fronteira oeste. E, em 24 de fevereiro de 1843, pelas mãos do nosso Patrono Domingos José de Almeida, surgia oficialmente Uruguaiana — uma cidade concebida no espírito da resistência e da bravura.
Naquela metade do século XIX vinha ao mundo uma nova pólis. Germinava naquela manhã de verão, a gênese daquilo que hoje é uma fronteira viva. Um ponto de comunhão entre idiomas, usos e costumes.
E por estas ruas retas e largas, planejadas há quase dois séculos, passaram e continuarão a passar os nomes mais ilustres que a história registra e haverá de registra com alegria nos livros de ontem, hoje e sempre.
Mas em 29 de maio de 1846, Uruguaiana deu um dos passos mais importantes de sua história: emancipou-se politicamente para trilhar o caminho de suas glórias. Aquele momento foi o reconhecimento da pujança que esta terra já possuía na fronteira sul do Brasil. Em meio aos campos do Pampa, distante dos grandes centros da época, Uruguaiana decidiu construir seu próprio destino, inscrevendo-se como “Atalaia da Pátria”. Foi ali que nasceu, oficialmente, uma comunidade marcada pela coragem, pelo espírito pioneiro e pela capacidade de transformar desafios na grandeza que hoje possui.
Décadas depois, esta mesma terra viveria um dos episódios mais dramáticos da história brasileira: a invasão paraguaia de 1865. Uruguaiana tornou-se a única cidade brasileira sequestrada militarmente durante a Guerra do Paraguai. E foi aqui que ocorreu, em 18 de setembro do mesmo ano, a célebre Retomada de Uruguaiana — um acontecimento histórico que reuniu o imperador Dom Pedro II, o presidente argentino Bartolomé Mitre, o presidente uruguaio Venancio Flores e o alto comando militar do sul da América do Sul, que se reuniram em nosso pago para retomar do inimigo o quinhão de terra que havia nos havia sido tomado pelas mãos do invasor. Poucas cidades sul-americanas podem afirmar que estiveram no centro de um teatro de operações militares de um conflito continental.
Na mesma tarde, poucas horas depois, também encerrava-se aqui um dos maiores conflitos diplomáticos de todo o século XIX. Quando o embaixador inglês no Uruguai entregava ao Magnânimo Dom Pedro II um pedido formal de desculpas da rainha Vitória, findando a Questão Christie.
Em 18 de setembro de 1865, pelas armas, retomamos nossa terra; e pela diplomacia, afirmamos a soberania de um Brasil que se consolidava diante do mundo.
Mas Uruguaiana não se construiu apenas pela guerra. Também se construiu pela ousadia daqueles que souberam sonhar de olhos abertos.
Foi aqui que surgiram iniciativas pioneiras que marcaram o país:
Quatro anos antes da Lei Áurea que fez do Brasil o último país a libertar seus cativos, a redentora Uruguaiana libertou seus escravizados em 1884.
E assim, sempre à vanguarda de seu tempo, fomos avançando em passos largos rumo ao futuro e ao progresso.
Daqui saíram os primeiros litros de gasolina destilados no Brasil;
Aqui surgiu a primeira ponte internacional a ligar Brasil e Argentina;
Aqui é o berço do Cavalo Crioulo, animal que carrega a força e a identidade do homem campeiro;
Daqui sai o arroz que todos os dias é servido na mesa dos brasileiros.
Daqui floresceu, e ecoa pelos quatro cantos do Rio Grande, um dos maiores movimentos culturais do sul do continente — a Califórnia da Canção Nativa, responsável por resgatar, valorizar e eternizar a música e a identidade do povo gaúcho.
Uruguaiana, a cidade de fronteira “longe de tudo e perto do nada”, nunca foi periferia da história. Ao contrário: sempre esteve no centro dela.
Nesta terra marcada pelo vento minuano que ainda nos traz o cheiro dos povos que por aqui passaram abrindo picadas, na imensidão do Pampa, formou-se a Esparta gaúcha acostumada à superação. Uma sociedade que aprendeu a conviver com crises e dificuldades, enchentes e secas, guerras e revoluções, distâncias e desafios sem jamais perder sua identidade.
Pois no sangue desta cidade está o DNA dos desbravadores. Dos libertários. Dos homens e mulheres que nunca se submeteram. Dos que transformaram isolamento geográfico em protagonismo humano.
Hoje, ao comemorarmos 180 anos da elevação de Uruguaiana à categoria de vila, olhamos para o passado com orgulho e altivez, enquanto celebramos a permanência de uma identidade histórica singular e incomparável.
Uma cidade que já foi passagem de exércitos que disputaram o controle econômico do sul da América do Sul e que hoje é coração do Mercosul.
Uma cidade que viu passar e participou dos principais conflitos do século XIX e início do século XX, mas que hoje celebra a paz como “Capital da Integração”.
Uma cidade que ajudou a desenhar fronteiras, mas que nunca deixou que fronteiras limitassem sua grandeza.
Parabéns, Uruguaiana.
183 anos de fundação.
180 anos de emancipação política.
E uma eternidade de histórias gravadas em sua epopeia. Histórias que hoje são contadas aqui e outras tantas que ainda haverão de ser narradas pelos filhos desta terra.








