Antes que Uruguaiana fosse nome, antes que existisse como palavra oficial em mapas, decretos ou registros, ela já existia como gesto humano. Às margens do rio Uruguai, entre as barras do Ibicuí e do Itapitocaí, a vida se insinuava de forma em pequenas aglomerações de povoação, como fazem os lugares que não pedem licença para nascer. Ranchos de madeira, galpões de trabalho e postos fiscais de gado surgiam rente à água, sustentados pelo o que essa terra podia oferecer.
Entre os que acreditaram nesse primeiro ensaio de povoação estava Joaquim dos Santos Prado Lima, figura essencial nos alicerces do que viria a ser Uruguaiana. Mas a natureza, que acolhe, também cobra. Em 1840, a grande enchente não se limitou a transbordar o rio, ela apagou contornos, levou casas, dispersou famílias e dissolveu o desenho inicial daquele pequeno local em formação, como se testasse a vontade de permanência daquelas pessoas.
Da destruição nasceu a escolha. As lideranças do governo farroupilha intervieram e determinaram o deslocamento do povoado para o Capão do Tigre, onde o solo oferecia maior segurança. Assim, em 24 de fevereiro de 1843, Uruguaiana foi oficialmente fundada, ainda sob a administração de Alegrete. Sua independência viria em 29 de maio de 1846, quando a cidade passou a conduzir sua própria vida, guiada pela força econômica da fronteira e pelo trabalho no campo de quem aqui escolheu como lar. Foi José Domingos de Almeida quem lhe deu nome, mas foram muitos os que lhe deram corpo, alma e força.
E com a cidade, nasceram seus espaços de encontro. A praça, que ainda não era Redenção e tampouco Barão, surgiu como um chão aberto ao convívio, as conversas, aos encontros. Há quem diga que uma cidade nasce de um rio, outros acreditam que ela se forma ao redor de uma igreja, e há quem defenda que tudo começa em uma praça. Uruguaiana nasceu dos três. O rio lhe deu caminho para novas terras e sustento, a igreja lhe ofereceu permanência espiritual ao receber o título de Capela Curada do Uruguai antes de ser Uruguaiana, e a praça tornou-se o coração onde a cidade aprendeu a se conhecer.
A primeira praça, chamada Matriz, não carregava ainda monumentos, calçamento ou a estética moldada por administrações futuras. Era simples, mas já pulsava como centro simbólico. Ali, a cidade começava a se alinhar, a se organizar, a se reconhecer. Com o tempo teria como vizinha a Igreja Matriz que iniciou sua construção em 1862, firmando aquele espaço como eixo urbano, espiritual e social.
A praça cresceu com Uruguaiana como um coração em um corpo ainda jovem. E, como todo coração exposto, também sangrou. Em agosto de 1865, a cidade despertou sob o peso da guerra. No dia 5 daquele mês, mais de sete mil soldados paraguaios, comandados pelo coronel Antonio de la Cruz Estigarribia, ocuparam Uruguaiana. O espaço antes destinado ao encontro viu sua grama marcada pela tensão, pelo medo e pelo silêncio pesado do conflito, que se espalhou também pelos campos agrícolas e áreas vizinhas.
O cerco durou mais de quarenta dias, tempo em que a história sul-americana pareceu convergir para aquele ponto da fronteira. Dom Pedro II, o Duque de Caxias, o Almirante Tamandaré, o Conde de Porto Alegre, Bartolomé Mitre, Venancio Flores, o Conde d’Eu e o Duque de Saxe passaram a ocupar o cenário, transformando a cidade em palco de decisões que ultrapassavam seus limites geográficos. Foi nas imediações da atual esquina das ruas Duque de Caxias e Santana que o desfecho se revelou. A rendição de Estigarribia, marcada por uniformes reduzidos a farrapos e soldados exaustos, simbolizou não apenas a derrota militar, mas a restituição da cidade àqueles que nela haviam fincado raízes.
Em 1870, a Câmara Municipal nomeou o espaço como Praça da Rendição, em memória aos que perderam a vida na defesa de Uruguaiana. No ano seguinte, o plantio de árvores transformou o local em um gesto de reconstrução e continuidade. Décadas mais tarde, às vésperas do centenário, o nome voltou a ser questionado. Segundo Urbano Lago Villela, a presença de representantes paraguaios nas celebrações teria motivado a mudança, numa tentativa de suavizar o peso simbólico da palavra rendição. Ainda assim, para o escritor, aquele solo jamais deixou de carregar esse nome em sua essência.
Optou-se então por homenagear o Barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Júnior, diplomata, jurista e figura central na consolidação das fronteiras brasileiras. Foi sob a administração do intendente Pedro de Souza Passos que a praça recebeu oficialmente o nome que carrega até hoje, somando uma nova camada de significado a um espaço já marcado pela história.
Aos pés do monumento do Barão, onde tantas infâncias se formaram, onde o chimarrão ainda é compartilhado à sombra de árvores antigas, naquele chão consagrado por José Domingos de Almeida, palco de espetáculos, feiras e encontros, que a nossa história começou a ser escrita. A praça permanece ali, cada vez mais bela e mais acarinhada pelos uruguaianenses e pelos nossos visitantes, guardando não apenas nomes ou datas, mas a memória viva de uma cidade que aprendeu a existir antes mesmo de ter um nome.
Este texto tem como base de pesquisa as obras “Uruguaiana: Atalaia da Pátria - o meio, o homem e a história” e “O Fundador de Uruguaiana: Domingos José de Almeida”, ambas do escritor Urbano Lago Villela.
As imagens utilizadas são resultado de pesquisas realizadas em acervos disponíveis na internet. Algumas delas passaram por processos de restauração com o auxílio de inteligência artificial, sempre respeitando as características, a estética e a autenticidade do período histórico retratado.
Autor: Thaís Vieira - Secom/PMU