O início da história de Uruguaiana não começa com muros, nem com decretos, nem com assinaturas em papel. Ela começa muito antes, no movimento paciente e eterno das águas.
Antes de qualquer nome, antes de qualquer bandeira, sempre houve o Rio Uruguai. Desde o período pré-histórico, ele corre por estas terras como uma coluna vertebral da paisagem e da vida. Suas margens férteis ofereceram abrigo, alimento e caminhos naturais para os primeiros grupos humanos que aqui se estabeleceram. Onde havia água doce, caça abundante, pesca farta e solo fértil, havia também disputa. Desde os primórdios, este território foi desejado e isso, por si só, revela sua importância.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, este espaço já possuía história, ocupação e identidade. Aqui era terra charrua. Povos indígenas conhecidos como “ribeirinhos”, que viviam próximos aos rios e arroios, compreendendo o ambiente não como algo a ser dominado, mas como parte inseparável de sua existência. Os charruas conheciam o ritmo das cheias, o tempo da pesca, os ciclos da terra. Uruguaiana, ainda sem nome, já pulsava como território vivo.
Com o Tratado de Tordesilhas, acordo firmado em 1494 entre Portugal e Espanha para dividir as terras recém-descobertas além-mar, esta região passou a integrar a zona de domínio espanhol. Na prática, isso significou que, durante séculos, o território que hoje forma Uruguaiana esteve submetido à lógica colonial espanhola.
Foi apenas no século XVII que a ocupação europeia passou a se organizar de maneira mais estruturada. Vieram as ordens religiosas, em especial a Companhia de Jesus, cujo objetivo era propagar a fé cristã, organizar comunidades indígenas e protegê-las da escravidão imposta por colonizadores e bandeirantes. Nesse contexto surge a estância de Yapeyú, nome de origem tupi-guarani que significa “o lamaçal”, uma referência direta às características do terreno.
As reduções jesuíticas cresceram rapidamente. A de Yapeyú chegou a abrigar cerca de oito mil indígenas. Com esse crescimento vieram os desafios: a pressão sobre os recursos naturais, períodos de seca, surtos de doenças e dificuldades de abastecimento. Para garantir a sobrevivência da comunidade, tornou-se necessário expandir.
Foi nesse contexto que os padres jesuítas, com o apoio dos indígenas guarani, separaram cerca de mil cabeças de gado e atravessaram o Passo do Aferidor, percorrendo aproximadamente doze quilômetros até a Coxilha do Puitã, passando pela região onde hoje se localiza a Barragem Sanchuri. Ali foi fundada a Estância de Santiago, na banda ocidental do Rio Uruguai e foi por ela que os guaranis passaram a ocupar esta região. Vieram integrados à dinâmica missioneira organizada pelos padres jesuítas, estruturando aldeamentos em torno da fé, da terra e da vida coletiva. Esses povos não apenas ocuparam o espaço, mas o moldaram, criando caminhos, práticas agrícolas e relações profundas com o ambiente natural.
Esse foi um dos marcos mais importantes da ocupação produtiva da região. A estância tornou-se base para a criação extensiva de gado e, com o tempo, transformou-se em um verdadeiro centro de distribuição pecuária, abastecendo vastas áreas do sul do continente. Antes mesmo de receber um nome oficial, Uruguaiana já desempenhava um papel econômico estratégico. No início do século XIX, estava consolidada sua vocação como celeiro pecuarista, característica que atravessaria gerações.
Mas a história não avança em linha reta e nem tudo são floreios e alaúdes. Em 1750, o Tratado de Madri redefiniu as fronteiras entre Portugal e Espanha na América do Sul, anulando o Tratado de Tordesilhas. Essa mudança desencadeou conflitos profundos. Em 1756, durante a Guerra Guaranítica, o líder indígena Sepé Tiaraju morreu nas batalhas do Caiboaté, na região do atual município de São Gabriel. Sua morte simbolizou o fim da resistência guarani organizada e culminou no chamado Massacre das Missões.
Com isso, o território passou definitivamente ao domínio português, mas foi abandonado. As estruturas missioneiras ruíram, o gado criado ao longo de décadas ficou solto pelos campos e a região tornou-se vulnerável. Contrabandistas passaram a circular em busca do couro dos animais, aproveitando-se da ausência de controle. O vínculo religioso entre jesuítas e indígenas praticamente se encerrou, especialmente pelo trauma deixado pela morte de Sepé Tiaraju. Estas terras passaram a ser conhecidas como “terra de ninguém”.
No século XVIII, o Império Português percebeu que não poderia ignorar a importância estratégica da fronteira oeste, da campanha e das missões. Para garantir a defesa do território, foram criados postos militares e distribuídas sesmarias, grandes extensões de terra concedidas a militares, tropeiros, criadores de gado e pessoas de prestígio. Essas sesmarias, muitas com cerca de doze mil hectares, eram delimitadas por rios, arroios, coxilhas e cercas de pedra construídas por mão de obra escravizada.
É nesse momento que começa a se formar a base social da futura Uruguaiana. Surgem figuras como Joaquim dos Santos Prado Lima, que logo adiante na história seria uma peça importante para a fundação de Uruguaiana e cujo nome permanece vivo nas ruas da cidade. As terras, os rebanhos e os caminhos abriram espaço para uma sociedade fronteiriça, marcada pelo trabalho duro, pela mobilidade e pela vigilância constante.
Naquele período, todo esse território pertencia ao município de Alegrete. Em 1835, quando a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul já estava subdividida em quatorze municípios, Uruguaiana ainda era apenas parte de um espaço maior, sem autonomia administrativa.
Então veio a Revolução Farroupilha.
No ano de 1835, quando a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul se lançou à Guerra dos Farrapos contra o Governo Imperial Brasileiro, este território deixou de ser apenas uma paisagem de travessia de contrabandistas e tornou-se estratégia.
Aqui existia um ponto antigo e precioso: Santana Velha. Descoberta pelos padres jesuítas ainda em meados do século XVII, essa passagem natural sobre o Rio Uruguai era herança direta da presença missioneira e, naquele momento, assumia novo protagonismo. Santana Velha não era apenas um local de travessia rumo à Argentina, era um ponto de observação, controle e vigilância, essencial para o deslocamento de tropas farroupilhas e imperiais na fronteira com a Argentina e o Uruguai.
Mas guerra não se vence apenas com bravura. Toda guerra exige suprimentos, logística e recursos. Armas, cavalos, alimentos, tudo precisava ser adquirido. Além disso, os portos de Torres, Porto Alegre e Rio Grande estavam sob o controle das tropas imperiais, limitando as rotas comerciais farroupilhas e impondo severas restrições econômicas. Foi nesse contexto que os líderes farroupilhas decidiram fortalecer Santana Velha como ponto alfandegário estratégico. Ali passaram a ser taxados os produtos que cruzavam a fronteira, vindos do Uruguai e da Argentina, gerando recursos para sustentar o exército revolucionário e criando alternativa diante do bloqueio imperial.
A concepção dessa estrutura foi conduzida pelo Ministro da Fazenda da República Rio-Grandense, Domingos José de Almeida, homem de visão estratégica e profunda compreensão do valor daquela região.
Em outubro de 1840, o Rio Uruguai transbordou com força. A enchente atingiu áreas ribeirinhas e comprometeu estruturas próximas às margens, mas o posto fiscal de Santana Velha não foi destruído, pois a cheia não alcançava aquele ponto mais elevado. Ainda assim, a instabilidade reforçou os debates sobre a consolidação definitiva do núcleo urbano.
Diante desse cenário, Domingos José de Almeida, com o aval do Governo Farroupilha, tomou uma decisão definitiva: ordenar a retirada da povoação de Santana Velha e determinar a fundação de um novo núcleo em local mais elevado, seguro e estrategicamente favorável. O próprio ministro foi o primeiro a indicar a margem do Rio Uruguai, entre as barras do Ibicuí e do Itapitocaí, como área inicial para a nova povoação, não apenas por conveniência fiscal, mas por claras vantagens militares e geográficas.
Para dar sequência aos trabalhos, Domingos José de Almeida encarregou Joaquim dos Santos Prado Lima de proceder à escolha do local. Prado Lima sugeriu a área entre o Imbaá e o Salso. Contudo, surgiram divergências, indecisões e reclamações quanto aos pontos indicados. O debate se intensificou.
Nesse momento, destacou-se a intervenção do general Bento Manoel, que sugeriu a margem esquerda do Ibicuí, junto à sua barra. Diante das controvérsias, o Governo da República Rio-Grandense determinou uma análise técnica mais ampla. Engenheiros e técnicos farroupilhas foram enviados para examinar toda a costa do Rio Uruguai, desde a foz do Ibicuí até a foz do Itapitocaí.
Após criteriosa avaliação, concluiu-se que o local mais apropriado para a nova povoação era o Capão do Tigre, situado nas terras de Couto Rico. Quem confirmou, de forma decisiva, a escolha do local foi o general Davi Canabarro, então comandante militar desta fronteira, compreendendo que ali estavam reunidas as condições ideais de defesa, acesso e permanência.
Em 24 de fevereiro de 1843 foi criada a Capela Curada do Uruguai.
Porém essas terras ainda eram de administração alegretense. Em 24 de fevereiro de 1843, Bento Gonçalves da Silva, então presidente da República Rio-Grandense, assinou o decreto que criou a Capela Curada do Uruguai, porém ainda sem a categoria de cidade, o que viria a acontecer, ainda na Revolução Farroupilha, em 29 de maio de 1846.
Abaixo a redação do decreto que fundou Uruguaiana:
Decreto nº 21
Alegrete, 24 de fevereiro de 1843.
Oitavo ano da Independência e da República.
Artigo primeiro: Fica criada junto ao Capão do Tigre, na margem esquerda do Uruguai, uma capela curada com denominação de Capela do Uruguai.
Artigo segundo: A capela do Uruguai terá por limites o Ibirocaí na sua barra com o Ibicuí até a barra do Igiquiquá, por esta acima seguirá o vertente rumo ao Sul, que confronta com a outra ao mesmo rumo que vai do Garupá e por este abaixo até o Quaraí, seguindo este até o Uruguai e daí por este acima, a fechar na referida barra do Ibirocaí, e gozará de todas as vantagens atribuídas por as demais capelas curadas da República.
Francisco de Sá Brito, Ministro e Secretário dos Negócios da Justiça e interinamente do Interior, o tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários.
Bento Gonçalves da Silva
Assim Uruguaiana foi fundada, moldada pela água, pela fronteira, pela resistência e pela estratégia. Forjada por povos originários, missioneiros, tropeiros, militares e revolucionários. Uma cidade que, em 1846, não surgiria por acaso, mas porque a História exigiu que ela existisse aqui e que vive em 2026 os seus 180 anos.
Mas, é preciso deixar claro que o nome
Uruguaiana surgiria apenas em 1846. Pois, foi Domingos José de Almeida, ministro da Fazenda do Governo Farroupilha, quem consolidou oficialmente a denominação ao elevar o núcleo à categoria de cidade.
O nome carrega simbologia profunda: “Uruguai” (uruay), na língua guarani, significa “rio dos pássaros”. “Ana” remete à padroeira de Santana Velha. A escolha revela também a influência dos padres jesuítas na formação cultural da região, unindo elementos indígenas e cristãos na identidade do município.
E ainda hoje se debate quando, de fato, nasce o povo uruguaianense. Se com os charruas, com os guaranis, com os jesuítas, com os tropeiros, com os soldados ou com os farroupilhas. A verdade é que Uruguaiana é a soma de todos eles. De cada camada de tempo, de cada conflito, de cada decisão tomada sob risco.
Como escreveu Urbano Lago Villela:
“O município de Uruguaiana é repositório de glorias que necessita, ser aviventadas pelos responsáveis por nossa História para que o povo e principalmente a mocidade desta gleba, siga, pelo exemplo, a trilha que seus maiores abriram a pata de cavalo e a fio de espada, com o sacrifício da própria vida.”
Esta é uma história contada com respeito às fontes e com licença poética para ouvir o eco do tempo e da imaginação durante as pesquisas. Uma história que corre, como o Rio Uruguai, atravessando séculos para lembrar que Uruguaiana sempre esteve destinada a existir, a ser fronteira, a ser passagem e a ser sentinela do Brasil.
Texto: Thaís Vieira
Correção e monitoria: Dagoberto Alvim
Fontes de pesquisa:
VILLELLA, Urbano Lago.
Uruguaiana, Atalaia da Pátria: o meio, o homem e a história. Uruguaiana: s.n., s.d.
PIMENTEL, Fortunato.
Aspectos Gerais de Uruguaiana. Uruguaiana: s.n., s.d.
UNISINOS – Instituto Anchietano de Pesquisa. Publicações em Antropologia, v. 75. Disponível em:
https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/antropologia/volumes/075.pdf
Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul. Ocupação do Território. Disponível em:
https://atlassocioeconomico.rs.gov.br/ocupacao-do-territorio
Estudios Históricos. Uruguaiana. Disponível em:
https://estudioshistoricos.org/12/artigo%20uruguaiana.pdf
1843 – O Nascimento da Filha Dileta. Documentário, 2025. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=-L06nLDQlXc&t=1463s.
Prefeitura Municipal de Uruguaiana. Disponível em:
https://www.uruguaiana.rs.gov.br/portal/noticias/0/3/5927/fundacao-de-uruguaiana-completa-182-anos-nesta-segunda-feira
Câmara Municipal de Uruguaiana. Disponível em:
https://www.uruguaiana.rs.leg.br/institucional/historia/pagina-padrao
Prefeitura Municipal de Alegrete. História de Alegrete. Disponível em:
https://www.alegrete.rs.gov.br/historia/historia_alegrete.php